16 Novembro 2019

Dicamba no Brasil? Veja o que a pesquisa já testou e deve recomendar

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A resistência das plantas daninhas aos agroquímicos atuais tem tirado o sono e os lucros do produtor rural brasileiro. Na soja estima-se que as perdas superem os R$ 9 bilhões por ano, segundo a Embrapa. O lançamento de um novo herbicida, o dicamba, pode estar próximo, mas ainda gera dúvidas sobre sua segurança, principalmente em relação à culturas não resistentes.

No entanto, várias entidades de pesquisa e empresas estão testando em campo alguns gargalos que o produto poderia gerar e o resultado é animador.

Antes de mais nada, vale lembrar que a empresa Bayer já obteve autorização para comercializar uma soja resistente ao herbicida dicamba, a Intacta 2 Xtend, mas só irá lançar a tecnologia em 2021, pois entende que a nova tecnologia precisa vir aliada a um manejo inteligente e diferente do realizado atualmente.

“Entendemos que é importante trazer um treinamento para o uso dessas novas práticas, pois estamos propondo uma mudança de patamar. O nível de adoção do produtor dependerá da percepção dele do valor agregado que a tecnologia trará, tanto no resultado final, como para as práticas agrícolas em relação aos agroquímicos”, afirma Fábio Passos, gerente de lançamento da nova plataforma na Bayer.

Muitas histórias já surgiram sobre o uso do dicamba em outros países, como nos Estados Unidos. Entretanto, o herbicida que vem sendo testado no Brasil é uma nova formulação, diferente da já usada no país da década de 1970 e da dos EUA, lançada em 2018.

“A primeira formulação tinha 100% de volatilidade. A segunda geração, lançada em 2018, tem uma formulação mais segura em relação a volatilidade e o risco de queimar uma lavoura vizinha é muito menor. A nova formulação, conhecida como DGA, é ainda mais segura com apenas 0,55% de volatilidade”, explica Passos.

Outra mudança realizada para o Brasil é em relação aos estudos para lançamento dos produtos: a soja Intacta 2 Xtend e o novo dicamba. Pela primeira vez uma empresa privada resolveu unir forças com diversos órgãos de pesquisa espalhados por todas as regiões do país, para testar as recomendações do produto em campo.

Ao todo, os testes com as duas tecnologias estão sendo realizados junto com pelo menos 250 produtores rurais espalhados por vários estados e, estes contam com o auxílio da Bayer e de especialistas (pesquisadores de várias entidades).

“Na safra passada a Bayer nos procurou para fazermos parte dos time de especialistas que fariam alguns ensaios com protocolos pré-estabelecidos, servido como guarda-chuvas para testar a nova tecnologia”, explica um dos pesquisadores que participam do projeto, Fábio Pittelkow diretor de pesquisa da Fundação Rio Verde (MT).

O Projeto Soja Brasil está acompanhando de perto a evolução das lavouras de soja Intacta 2 Xtend e, paralelamente, o uso do dicamba na safra 2019/2020. Lembrando que este é o segundo ano de testes, em escala comercial, realizado pela empresa.

Com isso, o Soja Brasil desembarcou em Lucas do Rio Verde (MT), onde a Fundação Rio Verde supervisiona os trabalhos. Por lá foram semeados 4 hectares, tanto com Intacta 2 Xtend, como com Intacta, para testar a questão volatilidade e da deriva.

“Plantamos uma tecnologia colada a outra para entender os impactos da deriva e volatilidade, usando as recomendações para uso do dicamba. Por isso também não controlamos as plantas daninhas”, diz Barbara Tagliari, gerente técnica de lançamento da Intacta 2 Xtend da Bayer.

A soja na fazenda germinou bem e se encontrava no estádio vegetativo V3. Exceto as plantas invasoras, ambas não apresentavam nenhuma avaria por insetos ou doenças, ou seja, estavam perfeitas como o produtor sempre quer ver.

Ponta de pulverização

A discussão em torno do herbicida gera muitas dúvidas nos produtores e por isso os testes estão sendo realizados. Assim as recomendações serão certeiras e não deixarão espaços para problemas, desde de que as instruções sejam seguidas à risca.

Os primeiros testes avaliaram se a troca das pontas de pulverização traria impactos em relação a deriva. E o resultado mostrou que isso é fundamental.

Foram cogitadas três pontas diferentes, uma com gotas finas, outra com gotas médias e, mais comumente usada, e a ponta TTI, com gotas grossas.

Ponta Fina

“Essa ponta foi descartada para herbicida porque gera muita deriva e não atinge a planta como deveria”, afirma Letícia Wendt, representante comercial da Bayer.

Ponta Leque (média)

“Essa ponta gera um padrão de gotas mais uniforme e, por isso, na folha sensível aparece mais redonda. Conforme aumentamos a quantidade de água no tanque do pulverizador, temos uma eficiência maior da aplicação do herbicida. Mas ainda teria risco de deriva”, aponta Letícia.

Ponta TTI (grossa)

Tabela mostra a diferença entre as aplicações. Foto: Daniel Popov“As gotas são bem mais pesadas neste caso. Ela cairá mais facilmente, diminuindo as chances de deriva no ar. Quanto maior o volume de calda, melhor será a cobertura. Essa ponta tem uma indução de ar, então a gota vai com ar dentro, por isso é mais pesada”, explica.

Confira abaixo a diferença da aplicação entre as pontas:

“Notamos que de fato a ponta de aplicação é um item importante e fundamental para a eficácia do manejo e redução do risco de deriva. A ponta não recomendada mostrou que a deriva levou o produto até 50 metros além de onde o produto foi aplicado. Com a ponta certa, quase não notamos deriva. Não adianta o produtor tentar ajustar isso, ou fazer testes”, comenta o pesquisador da Fundação Rio Verde.

Em Mato Grosso, o volume de calda usado para aplicação de herbicidas varia de 60 a 80 litros por hectare. Não à toa a recomendação inicial da Bayer para o dicamba chamou a atenção do pesquisador da Fundação Rio Verde.

“Nos chamou a atenção a recomendação inicial para o volume de calda para aplicação do dicamba, que varia de 100 a 150 litros por hectare. Dentro das propriedades o transporte da água para essa aplicação acontece via caminhões e isso geraria um aumento no trabalho e também da água, que é um recurso pago”, afirma Pittelkow.

Tão logo recebeu a recomendação técnica, a Bayer topou que os testes com volumes menores fossem realizados na fazenda em Mato Grosso. “Por lá eles testarão usar um volume de calda de 50 litros por hectare e com 100 litros por hectare. Entendemos a necessidade local de fazer esses testes, por isso é tão importante essa relação com os especialistas”, diz Fábio Passos, da Bayer.

Segundo o pesquisador da Fundação Rio Verde, essa mudança pode não dar certo. “Vale ressaltar que pode não dar certo esta redução e o produtor terá que se adequar, caso queira usar o dicamba”, diz.

Outro ponto importante para evitar a deriva, é a velocidade do vento. A recomendação é para que o produtor adquira um termo-higro-anemômetro para medir com precisão.

“Nossa recomendação é que o vento esteja entre 5 e 10 km/h. Abaixo dessa velocidade há grande risco de inversão térmica, que normalmente acontece no início da manhã e fim da tarde. Isso significa que as gotas podem ficar suspensas em uma faixa do ar, não atingindo o alvo. Aquela neblina da manhã é um exemplo de inversão térmico”, afirma Passos.

A altura da barra é outro ponto importante para evitar problema com a deriva e qualidade da aplicação. O recomendado é que a barra do equipamento fique entre 50 e 60 cm de altura do chão. Não esquecendo que a velocidade do implemento também deve ser respeitada.

“A velocidade de aplicação deve ser feita  com no máximo 24 km/h, nossos testes usaram 18 km/h e o resultado foi muito bom”, afirma o pesquisador da Fundação Rio Verde.

Esta talvez seja uma das dicas mais repetidas durante o encontro técnico na fazenda em Lucas do Rio Verde. A insistência, na verdade, tem uma razão: o recomendado é a tríplice lavagem do equipamento, algo que a pesquisa já receita para muitos outros produtos.

“A limpeza do equipamento é parecida com a atual realizada, mas o produtor terá que gastar um pouco mais de tempo e cuidado com ela, para que não sobre produto”, comenta Pittelkow. “É primordial fazer a tríplice lavagem dos tanques e do pulverizador. Assim não restará resíduos que possam queimar as lavouras vizinhas suscetíveis.”

Por enquanto não há resultados de quantas sacas a nova soja da Bayer irá gerar por hectare, mas a promessa é que este resultado seja conhecido ainda nesta safra.

“Quando lançamos a Intacta, lá em 2012, os produtores conseguiram colher quase 6 sacas a mais por hectare. Para esta nova tecnologia percebemos nos nossos estudos mostram um salto de produtividade também. Ainda não temos esse número validado, pois os produtores estão testando ainda. Somente depois disso poderemos dizer de quanto estamos falando”, conta o gerente de lançamento da tecnologia, Fábio Passos.


Fonte Canal Rural

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